“Envelheci à francesa: sem alarde,
sem ruptura, apenas deixando o tempo assentar.
O corpo se aproveitou da minha
distração.
Não sei quando foi que decidiu
envelhecer, porque fez isso de forma silenciosa, quase elegante.
Um dia eu era movimento, urgência,
promessa. No outro, continuidade.
Não houve um aviso claro, nem um
momento exato.
O corpo foi mudando enquanto a mente
seguia intacta, cheia de planos, curiosidades e vontades. As mãos ganharam
histórias, o rosto aprendeu novos mapas, e o espelho passou a refletir alguém
que não chegou de repente, mas foi se tornando.
O envelhecimento não bateu à porta;
entrou enquanto eu estava ocupada vivendo.
Há algo de delicado nisso. O corpo
não traiu, apenas acompanhou o tempo.
Ele desacelerou onde antes corria,
pediu cuidado onde antes exigia força. Não perdeu dignidade, ganhou linguagem.
Cada mudança passou a comunicar experiência, não declínio.
Envelhecer à francesa é aceitar que o
tempo não precisa ser combatido, apenas compreendido.
É permitir que o corpo mude sem que a
essência se perca.
A mente continua curiosa, o olhar
atento, o coração disponível.
O corpo envelhece, sim, mas o faz com
uma elegância silenciosa, como quem sabe que viver é transformar-se sem pedir
licença.”
*(Velhice na obra de Simone
Beauvoir)*