Quando menino, seis ou sete anos, andava pela cidade, (então bem menor), com calça curta e o bumbum sujo de terra vermelha, jogando bola pelos vários campinhos então existentes.
O comércio da época era o "SECOS E MOLHADOS", pequenos armazéns que vendiam desde grãos 'in natura' a granel ou litro, utensílios de uso doméstico e de trabalho na lavoura, bem como produtos artesanais; além de gêneros alimentícios sólidos e líquidos, retalhos, fumo de rolo, cachaça, agulha, carne seca e ferramentas.
Grande ou pequena, toda cidade tinha seus armazéns até os anos 50 e 60, pois os supermercados ainda não eram difundidos.
A venda do Zé de Castro (onde hoje é o Bar do Vaguinho e a Farmácia da Mara) era um tipo de armazém, com um rolo de fumo de corda sempre em cima do balcão, com o qual os fumantes faziam seu cigarro de palha, cortando com um canivete ou faca, picando-o manualmente. Havia também o fumo desfiado a granel e o pó de fumo, que muitos homens adoravam cheirar.
Neste ambiente rural, simples, silencioso, ar puro, cheiro de árvores e flores, muita tranquilidade, íamos vivendo nossa meninice.
Foi quando conheci um senhor que morava lá no Caparaó. Um negro alto, pernas compridas, chapéu sobre a cabeça, sempre descalço, unhas pretas, pés grossos, calças pega frango, às vezes com uma cordinha amarrada à cintura servindo como correia de segurança da calça, cachimbo à boca.
Esse era o " PISA LONGE" era conhecido assim por seus passos longos, um sujeito que fazia de tudo, aceitava qualquer tipo de serviço. Entregava leite, cesto de pães, embrulho de carne para os açougueiros, limpava quintais e por vezes atuava até como coveiro ajudando o Sô Felipe, coveiro oficial à época. Em princípio, eu tinha um pouco de receio dele, mas com o tempo ele foi silenciosamente me conquistando, e eu até parava na rua para ouvir as histórias que ele instado pelas pessoas, adorava contar.
Não aceitava calçar sapatos, não andava de carro, charrete sim. Passar em pinguelas para ele era o maior desafio. Atravessava o rio dentro da água, se não estivesse fundo.
Cumpria um ritual de descer a Rua Principal pela manhã, conversava com um, com outro, descia a Rua do Lava Pés, tomava uma pinga na venda de Sô Eurico ou no Zé Nicolau, parava no Açougue de Sô Marinho Perdigão, depois era o papo na Loja de Peças de Veículos do Zé Morais ou na Barbearia do Jarbas. Quando retornava, parava na porta do Bar Semião, nossa rodoviária à época; e contava suas histórias, por sinal recheadas de imaginação e folclore, sempre com boa platéia; e, quando ameaçava ir embora insistiam para que ficasse mais, mas ele argumentava :
- " Não, já é quase hora do almoço, e eu tenho que passar na venda de Zé de Castro e " cheirar o fumo dele" antes de ir embora.
Risada Geral.
Assunto: Texto publicado no Facebook - Vale lêr.
Parabéns ao autor.
Texto de Jairo José da Silva.
"Que espetáculo! Nem Fellini poderia ter dirigido aquilo! Esses dois dias passarão para a História, não tenham dúvidas.
Vimos hoje, em cima daquele caminhão, o derretimento de um líder político em repulsivo strip-tease moral, uma viagem alucinante ao passado, uma epifania de verdades sob véus de mentiras.
Um homem que ocupou o proscênio da política brasileira por quase quatro décadas, que presidiu o país por oito anos, reduzido ao seu eu mais profundo, um agitador barato de porta de fábrica, um líder estudantil senil, um agente provocador. Discursando embebido de cachaça e ódio, sedento de vingança, conclamando arruaceiros a queimar pneus, invadir propriedades, atacar adversários, num paroxismo autolaudatório de mitomania.
O homem que ocupou a mais alta magistratura na Nação atacando a imprensa e o judiciário como um vulgar porralouca, desrespeitando instituições da democracia que jurou respeitar e defender.
Todo o espetáculo oscilou entre o patético e o ridículo. Uma fauna incrível de puxa-sacos e ratos brigando pelo espólio enfeitada com padres paramentados. Tinha até um bispo. Se eu não tivesse visto não acreditaria. Uma paródia de missa em pretensa homenagem a uma morta mas toda dedicada ao endeusamento de um muito vivo que mostrava seu sentimento religioso mamando cachaça de uma garrafinha de água (que tentavam tirar da mão dele antes que fosse muito tarde).
Sabendo que aquele era o seu ocaso, poderia ter tido um gesto de grandeza, ter ensaiado sua entrada na História de modo mais digno, mas preferiu mandar trazer cerveja e carvão para o churrasco. Inacreditável!
Lula foi um talento político como poucos, um homem de evidente inteligência prática, mas infelizmente completamente desprovido de princípios éticos. Ele nunca se deu conta de que foi uma marionete nas mãos de oligarquias corruptoras e arcaicas estruturas políticas que o manipularam como quiseram às custas de agrados, mimos, presentes, adulação.
Aliou desonestidade pessoal com a já consagrada desonestidade intelectual e moral das esquerdas. Roubar o Estado lhe parecia uma justa estratégia política, ainda que tivesse que entregá-lo a tubarões exploradores, desde que também pudesse usufruir pessoalmente de algumas migalhas desse banquete de ratos.
Lula terminou sua carreira como começou, como um líder sindicalista. Mas se aquele homem jovem dos anos 80 trazia consigo uma promessa de renovação, o velho fauno de hoje é só uma paródia de si mesmo.
Esse Lula de hoje é o mesmo Lula dos anos 80 e 90, o verdadeiro. O Lulinha paz e amor dos anos 00 e 10 foi uma invenção de Marcelo Odebrecht, que inclusive redigiu o infame Manifesto à Nação que tornou Lula palatável às classes médias. Lula Odebrecht acabou, sobrou um saco vazio recolhido a uma cela.
Lula foi preso e o país não parou, não houve comoção popular, não houve choro e ranger de dentes - o povo preferiu ir aos estádios de futebol - e na frente do sindicato só havia os mesmos fanáticos de sempre.
A montanha pariu um rato."