Eles tinham oito e dez anos quando o
mundo que conheciam desapareceu.
Abraham e Chaim Cimerman viviam em
Paris. Eram duas crianças judias como tantas outras, com uma família comum e
uma vida simples. Mas em 1942, a guerra mudou tudo. Sua mãe morreu naquele ano,
deixando o pai, Jankiel Cimerman, sozinho com dois filhos pequenos enquanto a
perseguição aos judeus se tornava cada vez mais feroz.
Em Paris, começaram as prisões em
massa. Famílias eram retiradas de suas casas e levadas, sem retorno. Jankiel
percebeu que permanecer na cidade significava quase certamente a morte para
seus filhos. Precisava encontrar um lugar para escondê-los. E rápido.
Tomou então uma decisão dolorosa:
separou-se deles para salvá-los.
Entrou em contato com uma mulher que
vivia em um pequeno vilarejo na zona rural da França. Chamava-se Yvonne Come.
Não era uma pessoa famosa, nem tinha qualquer posição de destaque. Era uma mãe,
com um filho chamado Régis, e levava uma vida simples. Quando Jankiel lhe pediu
para esconder Abraham e Chaim, Yvonne aceitou.
Era uma escolha que poderia custar
sua vida. As autoridades alemãs puniam severamente quem ajudasse judeus.
Bastava uma denúncia, uma suspeita, uma palavra errada. E, ainda assim, Yvonne
abriu a porta de sua casa para as duas crianças.
No vilarejo, eles não eram os únicos
meninos e meninas judias escondidos. Naqueles anos, várias famílias da região
ofereceram abrigo a crianças vindas de Paris. Yvonne também recebeu outros
pequenos por períodos mais curtos, sempre sob o mesmo risco.
Sua casa se tornou um refúgio
silencioso em meio à guerra.
Régis, seu filho, tinha quase a mesma
idade dos irmãos. Entre eles nasceu uma amizade verdadeira, aquela que surge
entre crianças que compartilham o mesmo medo e a mesma necessidade de
normalidade. Brincavam juntos, cresciam juntos, tentando viver dias o mais
normais possível enquanto a Europa queimava.
Os meses se passaram.
Então, chegou a libertação.
Abraham e Chaim sobreviveram à
guerra. E o laço com Régis não se quebrou. Continuaram a se ver nos anos seguintes,
como amigos que tinham compartilhado algo que ninguém jamais poderia esquecer.
Muitos anos depois, em 11 de
fevereiro de 1992, o memorial de Yad Vashem reconheceu oficialmente Yvonne Come
e seu filho Régis como Justos entre as Nações.
Um título importante, sem dúvida.
Mas a verdade é mais simples.
Em um tempo em que tantos fechavam
suas portas por medo, uma mulher do campo abriu a sua.
E aquela porta salvou vidas.