Tenho 92 anos e não saberia viver sem
amigas. Ao longo da minha vida, muitas já partiram. Outras mudaram de cidade,
outras ficaram frágeis, recolhidas nas suas casas.
Hoje tenho apenas uma amiga de
convivência mais próxima - e as vizinhas, que são amigas também. Não são
aquelas amizades de juventude, mas são presenças certas: sei que, se precisar,
estão ali.
As amigas trazem partes da vida delas
e levam partes da nossa.
Aprende-se sempre - mesmo aos 92.
Jogo canasta com uma das filhas e, através dela, fiz novas amizades, algumas
bem jovens. Acho importante ter amigas de várias idades. A vida vai afinando o
círculo, mas não o deve esvaziar.
Venho de uma família grande: dez
irmãos. Dois já partiram. Tinha uma irmã que era a minha irmã-amiga, e um irmão
que adivinhava quando eu precisava de colo, mesmo sem palavras.
Crescer numa casa cheia ensinou-me a
partilhar. Talvez por isso sempre me tenha sido natural fazer amigos.
Hoje moro sozinha, mas não estou só.
Tenho quatro filhas presentes, atentas, carinhosas. Todos os dias uma passa lá
por casa, ou eu vou ter com elas. Às vezes insistem em dar boleia por causa do
calor, mas gosto de caminhar. Tenho uma vista linda para o mar, pinto em
tecido, navego na internet, vejo o que me interessa no YouTube. Pago contas por
aplicativo, faço compras online.
A pandemia deixou-me mais cautelosa,
é verdade, mas não me tirou a curiosidade.
Sinto, sim, momentos de solidão. Quem
disser que não sente, não é sincero. Mas aprendi a ocupá-los com propósito.
Saio, tomo café numa confeitaria, vou ao shopping, passo fins de semana com uma
das filhas na praia. A vida social mudou, mas continuo ocupada.
Ser feliz, aos 92, é isto: ter
memória, ter autonomia e, sobretudo, ter pessoas. Porque ninguém vive só de si.
Vive-se dos laços que se constroem, e que nos constroem também.
Por: Manuela Marujo