Estávamos em
1959, um estádio lotado na Europa. Fazendo sons de macaco, atirando bananas no
campo. E no meio daquele inferno, um jovem negro de 18 anos sozinho a olhar
para a bola. O que fez nos 10 minutos seguintes calou cada uma daquelas 60.000
bocas e mudou a história do futebol para sempre. Esta é uma das histórias mais
brutais que vai ouvir sobre Pelé.
Uma história que raramente contava em
entrevistas. Uma história que os seus companheiros de equipa guardaram por
décadas antes de revelar os detalhes. Uma história sobre racismo, humilhação,
raiva contida e a maior resposta que um homem pode dar aos seus algozes. A
excelência absoluta. Antes de continuar, preciso de te levar de volta para essa
época.
Preciso que que compreenda o mundo em que
Pelé vivia. Preciso que sinta o peso que ele carregava nos ombros cada vez que
entrava num campo de futebol fora do Brasil. Estamos a falar do final dos anos
1950. A Segunda Guerra Mundial tinha acabado há pouco mais de uma década. A
Europa ainda lhe lambia as feridas e o racismo não era apenas tolerado, era
institucionalizado.
Em muitos países, as pessoas negras não
podiam frequentar os mesmos estabelecimentos que as pessoas brancas. Não se
podiam sentar nos mesmos bancos, não podiam beber fonte de água. O Brasil,
apesar de todos os seus problemas, era diferente. Havia racismo, claro, havia
discriminação, mas no futebol, pelo menos no futebol, a cor da pele importava
menos do que o talento.
Um jogador negro podia brilhar, podia ser
celebrado, podia ser idolatrado. E Pelé, desde muito novo, foi exatamente isso,
um ídolo. Mas quando o Santos começou a fazer excursões internacionais, quando
Pelé começou a pisar estádios europeus, ele descobriu uma realidade muito
diferente.
Descobriu que
fora do Brasil, a sua pele negra era vista antes do seu talento. Descobriu que
para muitos europeus um negro a jogar futebol era uma aberração, uma piada,
algo para ser ridicularizado. A história que te vou contar aconteceu em maio de
1959. O Santos tinha sido convidado para uma excursão pela Europa, uma série de
amigáveis contra alguns dos maiores clubes do continente.
Era uma oportunidade de ouro para o clube
brasileiro mostrar o seu futebol ao mundo. E era uma oportunidade de ouro para
Pelé, que tinha acabado de completar 18 anos, consolidar a sua fama
internacional depois de ter brilhado no Mundial de 1958. A excursão começou
bem. Vitórias convincentes, golos espetaculares, aplausos e admiração.
Mas houve uma partida específica que todos no
plantel temiam, uma partida contra um clube de uma cidade conhecida pela sua
hostilidade aos estrangeiros, uma cidade onde o racismo era especialmente
virulento. Não vou dizer o nome do clube, nem da cidade. Não porque tenha medo
de barragens, mas porque o que aconteceu naquele estádio não foi culpa de uma
instituição, foi culpa de pessoas, de milhares de pessoas que escolheram
conscientemente ser cruéis.
O Santos chegou à cidade na noite anterior ao
jogo. A recepção no hotel já deu sinais do que estava para vir. O gerente do
hotel, ao ver os jogadores negros desembarcando do autocarro, fez uma careta de
desgosto. Tentou dizer que não havia quartos disponíveis, apesar das reservas
terem sido feitas com semanas de antecedência.
Foi necessária a intervenção do cônsul
brasileiro para resolver a situação. Nessa noite, os jogadores foram
aconselhados a não sair do hotel. A cidade não era segura para eles,
especialmente para os jogadores negros, especialmente para Pelé. Pelé tinha um
quarto só para ele.
Uma cortesia que o clube oferecia ao seu
craque, mas que nessa noite se transformou numa prisão. Ele ficou sozinho,
olhando pela janela, vendo as luzes da cidade que o odiava, sem sequer
conhecê-lo. Zito, seu companheiro de equipa e um dos os seus melhores amigos,
bateu à porta por volta das 10 da noite. “Posso entrar?”, perguntou. Pelé abriu
a porta.
Zito viu imediatamente que algo estava
errado. Os olhos de Pelé estavam diferentes. Havia uma sombra neles que Zito
nunca tinha visto antes. “Estás bem?”, perguntou Zito entrando no quarto. Pelé
encolheu os ombros. “Tô pensando. A pensar no quê? No jogo de amanhã. No que é
que vamos enfrentar?” Zito sentou-se na beira da cama.
Ele também tinha ouvido as histórias. também
sabia o que os esperava. “Vai ser difícil”, admitiu. “Mas nós já enfrentou
coisa pior.” Pelé abanou a cabeça lentamente. “Você não compreende, Zito. Você
é branco. Para si é só um jogo difícil. Para mim é diferente. Para mim é
pessoal.” Zito não respondeu porque sabia que Pelé tinha razão.
Por mais que se
quisesse solidarizar, por mais que quisesse compreender, ele nunca saberia
realmente o que era entrar num campo sendo odiado pela cor da sua pele. “O que
vais fazer?”, perguntou finalmente. Pelé olhou para ele com uma intensidade que
Zito nunca esqueceria. “Vou jogar o melhor futebol da minha vida”, disse Pelé.
Vou fazer com que eles engolirem cada
palavra, cada ofensa, cada grito. Vou mostrar-lhes que um negro pode ser melhor
do que qualquer branco que idolatram. E quando eu terminar, vão ter vergonha de
terem nascido. Nessa noite, o Pelé não dormiu. Ele ficou acordado, sentado na
cama, mentalizando cada jogada, cada movimento, cada golo que iria marcar no
dia seguinte.
Era como se ele estivesse preparando-se para
uma batalha, porque de certa forma era exatamente isso. O dia do jogo amanheceu
cinzento. Nuvensadas cobriam o céu, como se até o clima soubesse que algo
terrível estava prestes a acontecer. O autocarro dos Santos saiu do hotel às
2as da tarde. O jogo estava marcado para as 4. A polícia local escoltou o
veículo não para proteger os jogadores, mas para evitar que a multidão que se
formava nas ruas atrasasse a chegada ao estádio.
E que multidão era aquela? Desde que o
autocarro saiu do hotel, as começaram a aparecer pessoas nas calçadas. No
início eram apenas olhares hostis, rostos fechados, braços cruzados, mas à
medida que o autocarro se aproximava do estádio, a situação piorava. Começaram
os gritos, palavras que não vou aqui repetir, mas que pode imaginar.
Insultos raciais, ameaças de violência, sons
de animais, gestos obscenos. Os jogadores dos Santos olhavam pela janela do
autocarro, chocados. Muitos deles nunca tinham visto nada parecido. Mesmo os
mais experientes, os que já tinham jogado em estádios hostis pelo Brasil, nunca
tinham enfrentado algo a esse nível.
Pep, um dos defesas da equipa, estava sentado
ao lado de Pelé. Viu que o jovem craque olhava para o multidão com uma
expressão impenetrável. Nenhuma emoção visível, nenhum sinal de medo ou raiva,
apenas um olhar frio, calculista, como se estivesse a arquivar cada rosto, cada
grito, cada ofensa. Pelé, sussurrou Pep.
Não deixes que isso te afetar, basta ignorar.
Pelé virou-se para ele e sorriu. Mas não era um sorriso de alegria, era um
sorriso que prometia vingança. “Eu não vou ignorar, Pep”, disse ele. “Vou
lembrar cada um deles e vou responder no campo.” O autocarro finalmente chegou
ao estádio, mas mesmo dentro do complexo desportivo, a a hostilidade
continuava.
Funcionários do clube local evitavam olhar
para os jogadores brasileiros. Alguns cuspiam para o chão quando eles passavam.
O vestiário designado para os santos era pequeno e sujo. Havia apenas um
chuveiro a funcionar. As privadas estavam entupidas. Era óbvio que aquilo era
propositado, uma forma de humilhar os visitantes ainda antes do jogo começar.
Lula, o
treinador do Santos, reuniu o time. Olha aqui disse ele com a voz firme. Eu sei
o que vocês estão sentindo. Eu sei que esta é uma vergonha, mas nós somos
profissionais. Nós somos o Santos Futebol Clube e nós vamos mostrar a essa
gente o que é futebol a sério. Os jogadores a sentiram, mas o clima era pesado.
Havia medo no ar. medo do que os esperava lá
fora. Pelé afastou-se do grupo, foi até um canto do balneário e começou a
preparar sozinho. Amarrou as chuteiras com cuidado, verificando cada atacador.
Esticou as meias, ajustou a camisola, fez alguns alongamentos, testou os
movimentos. Coutinho, o seu parceiro de ataque, se aproximou. “Como estás?”,
perguntou.
Pelé olhou para ele. Pronto. Pronto. Para
quê? Para fazer história. O túnel que levava ao campo era escuro e húmido. Os
jogadores dos santos caminhavam em fila, ouvindo o rugido da multidão ali fora.
Era um som diferente do que estavam habituados. Não era a excitação normal de
uma claque. Era ódio, ódio puro e concentrado.
Quando os jogadores brasileiros finalmente
emergiram no campo, o som foi ensurdecedor, mas não eram aplausos, eram vaias,
gritos, insultos. E depois as bananas começaram a cair. Dezenas delas,
centenas, jogadas das bancadas em todas as direções. Umas atingiam os
jogadores, outras caíam no relvado, criando um tapete amarelo grotesco.
Os jogadores do Santos pararam chocados. Uns
cobriram os rostos, outros tentaram desviar-se dos frutos que voavam. O
árbitro, um local, observava a cena sem fazer nada para intervir. E então
aconteceu algo que ninguém esperava. Pelé caminhou calmamente até ao centro do
campo, baixou-se, apanhou uma das bananas que tinham caído no relvado e,
olhando diretamente para a bancada mais hostil, deu uma mordida.
mastigou
lentamente, engoliu e sorriu. O estádio ficou em silêncio durante um instante.
As pessoas não sabiam como reagir. Aquele gesto simples tinha desarmado
completamente o ataque. Tinha transformou uma arma de humilhação em um ato de desafio.
Mas o silêncio durou pouco. Segundos depois, a hostilidade regressou com força
redobrada. Os gritos tornaram-se mais
altos, os insultos mais cruéis. A mensagem era clara. Aquele negro atrevido ia
pagar pela sua ousadia. O jogo começou às 4 em ponto. Desde o primeiro minuto,
ficou claro que os Os jogadores locais tinham recebido instruções especiais.
Não estavam ali apenas para ganhar, estavam ali para magoar, especialmente
Pelé.
As faltas eram brutais, as entradas por trás,
cotoveladas, pisões, tudo o que pudesse causar dor e lesão. E o árbitro, como
era de esperar, não marcava nada. Nos primeiros 15 minutos, Pelé foi derrubado
sete vezes. Sete vezes levantou-se do chão, sacudiu a poeira e continuou a
jogar, sem reclamar, sem ripostar, apenas jogando. A os adeptos locais adoravam
cada falta.
Cada queda de Pelé era celebrada com urros de
alegria. Era como se estivessem assistindo a um espetáculo de crueldade. E cada
golpe no jovem negro era um prémio. Mas o que eles não percebiam era que Pelé
esperava, estava estudando, estava a aprender o ritmo do jogo, as fraquezas dos
adversários, os espaços que deixavam ao tentar magoá-lo.
E aos 23 minutos do primeiro tempo, ele
atacou. A jogada começou no meio de campo. Zito recebeu a bola e olhou em
frente. Viu Pelé a fazer um movimento diagonal, escapando à marcação que tinha
sido brutal até aquele momento. Lançou a bola para o espaço, Pelé correu. O
defesa que o marcava tentou acompanhar, mas foi como tentar acompanhar um raio.
Pelé chegou primeiro na bola, dominou com o
peito, deixou saltar uma vez e depois, antes que qualquer um pudesse reagir,
rematou. A bola entrou no ângulo superior esquerdo. O guarda-redes nem se
mexeu, não havia nada a fazer. Era um golo impossível, um golo que desafiava a
física, a lógica, tudo. O estádio ficou em silêncio.
Não foi um silêncio breve como o de antes.
Foi um silêncio profundo, pesado, chocado. 60.000 pessoas que tinham passado a
última meia hora a vomitar ódio, de repente não tinham nada para dizer. Pelé
correu para o canto do campo, parou, olhou para a bancada e levantou um dedo a
apontar para o céu. Depois caminhou de volta para o centro do campo, como se
nada tivesse acontecido.
Mas o jogo estava apenas a começar. O golo
enfureceu os jogadores locais. Se antes queriam magoar o Pelé, agora queriam
destruí-lo. As faltas ficaram ainda mais violentas. Uma delas, aos 35 minutos,
quase partiu a perna a Pelé. O defesa entrou com as duas pernas, travas de
amostra, claramente tentando provocar uma lesão grave.
Pelé rolou no chão, segurando a canela. Por
um momento, todos acharam que ele estava gravemente ferido. Lula, o técnico, já
estava de pé, pronto para mandar o médico entrar em campo. Mas Pelé levantou-se
mais uma vez com uma careta de dor, mas de pé. Andou alguns passos, testou a
perna e acenou ao banco de suplentes indicando que estava bem. A claque local
voltou a troçar.
“Não aguentou,
neguinho”, gritavam. Vai chorar paraa mamã? Pelé ouviu. Pelé ouvia sempre e
Pelé lembrava-se sempre. Aos 41 minutos, respondeu. Desta vez a jogada foi
individual. Pelé recebeu a bola na intermediária, de costas para o golo. Dois
marcadores vieram na sua direção, prontos a sanduichá-lo. Mas Pelé foi mais
rápido.
Com um giro de corpo que parecia impossível,
ele escapou ao primeiro marcador. O segundo tentou derrubá-lo, mas Pelé saltou
para o ar, evitando a entrada, e aterrou já em movimento. Estava agora de
frente para a baliza, com apenas o guarda-redes pela frente, mas não rematou
logo, não. Pelé queria mais, queria humilhar.
Ele driblou o guarda-redes, simplesmente
driblou. Com um toque suave, tirou o guarda-redes do caminho como se ele fosse
um cone de formação. E depois, com a baliza vazia, tocou a bola para dentro.
2-0. Desta vez, o silêncio foi ainda mais longo e quando os sons voltaram já
não eram unânimes.
Havia vaias, claro, mas havia também algo
mais. sussurros, murmúrios, pessoas a olhar umas para as outras sem saber o que
dizer, porque o que estavam ver não era normal. O que estavam vendo era algo
que transcendia o futebol, era arte, era génio, era a prova viva de que aquele
jovem negro que tinham tentado humilhar era, sem sombra de dúvida, o melhor
jogador que qualquer um deles jamais tinha visto.
O intervalo chegou com o Santos a vencer por
2-0. No balneário, o ambiente era de euforia contida. Os jogadores sabiam que
ainda faltava um tempo inteiro. Sabiam que os adversários voltariam ainda mais
violentos. Sabiam que a batalha não tinha terminado. Lula reuniu a equipa
novamente. 45 minutos disse ele.
Mais 45 minutos e a gente faz história. Não
baixa a cabeça, não recua e protege o Pelé. Ele é a nossa arma e eles sabem
disso. Pelé estava sentado no canto a beber água. O seu corpo já mostrava os
sinais da violência que tinha enfrentado. Hematomas nos braços, nas pernas, um
corte na testa que o médico tinha acabado de limpar, mas os seus olhos os seus
olhos brilhavam.
Coutinho sentou-se ao seu lado. “Você está a
destruí-los?”, disse sorrindo. Pelé olhou para ele. Ainda não. Ainda falta
muito. “O que vai fazer no segundo tempo?”, Pelé pensou por um momento antes de
responder. “Vou fazer com que se arrependam de terem nascido”, disse. E foi
exatamente isto que aconteceu.
O segundo tempo começou ainda mais violento
do que o primeiro. Os jogadores locais, desesperados para mudar o marcador,
abandonaram qualquer pretensão de jogar futebol. Agora era pura brutalidade,
mas o Santos estava preparado. Zito e os outros médios formavam uma barreira
protetora em torno de Pelé. Pep e os defesas neutralizavam os ataques
adversários com eficiência cirúrgica.
E quando a bola chegava aos pés de Pelé, a
magia acontecia. Aos 12 minutos da segunda parte, Pelé marcou o terceiro golo.
uma bomba de fora da área que embateu na trave e entrou. O guarda-redes ficou
parado, sem reação, como se tivesse desistido. 3-0. Aos 28 minutos, o quarto
golo. Um passe de calcanhar genial de Coutinho e Pelé, terminando de primeira,
sem chance para o guarda-redes. 4-0.
E aos 39
minutos, o quinto golo. E este foi o mais especial de todos. Pelé recebeu a
bola no meio-campo, olhou em redor, viu que tinha quatro adversários entre ele
e o golo e decidiu que ia passar por todos os eles. O primeiro ficou para trás
com um drible de corpo. O segundo tentou uma entrada dura, mas Pelé saltou por
cima dele.
O terceiro foi driblado com um elástico que
ninguém viu e o quarto, o último defensor, simplesmente parou. parou e olhou,
porque não havia nada que pudesse fazer. Pelé rematou, a bola entrou no canto
da baliza e o estádio, aquele estádio que tinha passado 90 minutos a vomitar
ódio e racismo, explodiu. Mas não em vaias, em aplausos. 60.
000 pessoas de pé, aplaudindo o jovem negro
que elas tinham tentado destruir. Aplaudindo porque não havia outra opção,
porque o que tinham visto era tão extraordinário, tão para além de qualquer
coisa que pudessem imaginar, que o único instinto possível era reconhecer a
grandeza. Pelé parou no meio do campo, olhou para o redor para aquelas faces
que duas horas antes transbordavam ódio.
E não sorriu, não celebrou, apenas olhou,
porque aquele momento não era de alegria, era de vitória. Uma vitória que ia
muito para além do futebol. Era a vitória de um jovem negro sobre um sistema
que tentava desumanizá-lo. Era a vitória do talento sobre o preconceito. Era a
vitória da dignidade sobre a barbárie. O jogo terminou 5-0.
Quando soou o apito final, os jogadores do
Santos abraçaram-se no centro do campo. Uns choravam, não de tristeza, mas de
emoção, de alívio, de orgulho. Os Os jogadores adversários, humilhados dentro
do próprio estádio, saíram rapidamente para o balneário. Não houve aperto de
mãos, não houve troca de camisolas, apenas a vergonha silenciosa da derrota,
mas o momento mais marcante estava ainda por vir.
Enquanto os jogadores dos Santos caminhavam
em direção ao túnel, algo começou a acontecer nas bancadas. Lentamente, as
pessoas começaram a descer, não para agredir, como os jogadores temeram
inicialmente, mas para aproximar, dezenas de pessoas, depois centenas, descendo
das bancadas e aglomerando-se na beira do campo. E quando Pelé passou por elas,
algo inacreditável aconteceu.
Elas começaram a pedir desculpa. Perdão,
diziam. Perdão pelo que fizemos. Perdão pelo que dissemos. Eram as mesmas pessoas
que tinham jogado bananas, as mesmas que tinham feito sons de macaco, as mesmas
que tinham gritado insultos raciais durante 90 minutos. Agora, com lágrimas nos
olhos, pediam perdão a um jovem de 18 anos.
Pelé parou, olhou para aquelas pessoas e
disse apenas uma frase: “Eu não vim aqui para ser perdoado”, disse. “Vim aqui
para jogar futebol”. E depois continuou andando, entrando no túnel, deixando
para trás um estádio que nunca mais seria o mesmo. No balneário, o ambiente era
de celebração. Os jogadores cantavam, saltavam, abraçavam-se.
Lula tinha
lágrimas nos olhos. “Vocês são heróis”, repetia ele. “Heróis a sério.” Mas Pelé
estava quieto, sentado no mesmo canto de antes, tirando as chuteiras
lentamente, olhando para o chão. Zito se aproximou. “Ei, disse, porque é que
não está a celebrar?” Pelé olhou para ele e, pela primeira vez naquele dia, o
seu olhar suavizou.
Porque tal não deveria ser necessário, disse
ele. Eu não deveria ter de provar nada para ninguém. Eu não deveria ter que
marcar cinco golos para ser tratado como ser humano. Isso está errado, Zito.
Tudo isto está muito errado. Zito sentou-se ao lado dele. Não disse nada porque
não havia nada a dizer. Pelé tinha razão, completamente razão.
Um dia, continuou Pelé, a voz baixa. Um dia
as coisas vão ser diferentes. Um dia nenhum menino negro vai ter de passar pelo
que passei hoje. Esse é o meu sonho. Esse é o motivo pelo qual eu jogo. Nessa
noite, o time do Santos regressou ao hotel. Desta vez, o gerente que tinha
tentado recusá-los tratou todos com uma cortesia exagerada.
O restaurante do hotel preparou um banquete
especial e quando os jogadores saíram para passear pelas ruas, não encontraram
hostilidade. Encontraram curiosidade, admiração, respeito. A transformação foi
tão rápida que parecia surreal. Menos de 24 horas antes, aquelas mesmas ruas
transbordavam ódio.
Agora, as pessoas apontavam, sorriam, pediam
autógrafos, mas Pelé sabia que aquilo não era uma mudança verdadeira, era
apenas a reação momentânea a um espetáculo extraordinário. Quando ele se fosse
embora, quando outro negro entrasse naquele estádio, os insultos voltariam, as
bananas voltariam, o ódio voltaria. A batalha estava longe de estar vencida.
Nos dias seguintes, a notícia do que tinha
acontecido naquele estádio se espalhou pelo mundo. Jornais de vários países
publicaram relatos da partida. Alguns focaram-se nos golos espetaculares,
outros no racismo vergonhoso da claque. Poucos conseguiram capturar a
complexidade total do que tinha acontecido.
Para a maioria,
era apenas mais um jogo brilhante de Pelé, mais uma demonstração do
incomparável talento do jovem brasileiro. O racismo era mencionado de passagem
como um pormenor desagradável, não como o contexto fundamental que dava significado
a tudo. Mas para Pelé, aquele jogo ficaria marcado para sempre. Era a prova de
que o seu talento podia ser uma arma, que cada golo, cada jogada de génio, cada
vitória esmagadora era uma resposta ao ódio.
Uma resposta que não podia ser ignorada, não
podia ser diminuída, não podia ser esquecida. Nos anos seguintes, Pelé
enfrentaria situações semelhantes em outros países, noutros estádios. O o
racismo persegui-lo-ia por toda a carreira, como uma sombra que nunca
conseguiria escapar completamente. Mas nunca mais deixou de responder, nunca
mais permitiu que a dor se transformasse em paralisia.
Cada insulto era combustível, cada ofensa era
motivação, cada tentativa de desumanizá-lo era transformada em mais um capítulo
da maior carreira que o futebol já viu. E talvez seja essa a lição mais
importante daquela noite de Maio de 1959. Não que o racismo possa ser vencido
por golos. Não que a excelência individual possa curar doenças sociais, mas que
perante a brutalidade existe uma escolha.
A escolha de se
entregar à raiva e a dor, ou a escolha de transformar essa raiva em algo maior.
Pelé escolheu a segunda opção e o mundo nunca mais foi o mesmo. Mas a história
não termina aqui, porque o que aconteceu nos anos seguintes revelou camadas
ainda mais profundas daquele momento. 23 anos depois, em 1982, Pelé já estava
reformado e trabalhava como embaixador do futebol brasileiro pelo mundo.
A sua agenda levou-o de volta àquela cidade,
àquele estádio. Era uma visita oficial para celebrar uma parceria entre clubes
brasileiros e europeus. Pelé hesitou em aceitar o convite. As memórias daquela
noite ainda doíam, ainda queimavam. Mesmo depois de mais de duas décadas, podia
fechar os olhos e ouvir os gritos, sentir as bananas caindo à sua volta, ver os
rostos distorcidos de ódio.
Mas ele aceitou, porque fugir nunca tinha
sido seu estilo. O aeroporto estava lotado quando ele chegou. Havia
jornalistas, fotógrafos e uma multidão de curiosos querendo ver o maior jogador
de todos os tempos. A recepção foi calorosa, respeitosa, completamente
diferente daquele dia de 1959. O diretor do clube local veio pessoalmente
recebê-lo.
Era um homem baixo, de cabelo grisalho, que
apertava a mão de Pelé com um entusiasmo que parecia excessivo. “É uma honra
tê-lo aqui”, disse o diretor. “Uma honra absoluta”. Pelé sorriu educado, mas
por lá dentro observava, analisava, lembrava-se. A visita oficial incluiu um
passeio pelo estádio, o mesmo estádio onde tudo tinha acontecido.
Pelé caminhou pelos corredores, olhando em
redor, tentando conciliar o lugar moderno e bem cuidado com o palco de horror
da sua memória. Até que chegaram ao campo, Pelé parou à beira do relvado, olhou
para as bancadas vazias e, por momentos, estava de regressa a 1959. Era
novamente um jovem de 18 anos, ouvindo os gritos, sentindo o ódio,
preparando-se para a batalha do seu vida. “Senor Pelé”, chamou o realizador.
“Está tudo bem?” Pelé pestanejou, voltando ao
presente. “Está”, disse. Só lembrando, o diretor pareceu desconfortável. “Ah,
sim, o jogo de 1959. Nós sabemos o que aconteceu. É uma vergonha que carregamos
até hoje. Pelé olhou para ele. Vocês lembram-se? Claro que nos lembramos, disse
o diretor. Foi uma das páginas mais negras da nossa história, mas desde então
muita coisa mudou.
Fizemos campanhas contra o racismo. Banimos
os adeptos que praticam discriminação. Trabalhamos muito para que aquilo nunca
mais aconteça. Pelé ouviu em silêncio. Depois disse: “O trabalho é bom, mas o
trabalho não apaga o que aconteceu. O diretor baixou os olhos. Eu sei, eu sei
que não apaga.” Houve um momento de silêncio desconfortável.
Então o diretor pigarreou. Na verdade, disse
ele, há alguém que pediu para falar com o senhor, alguém que esteve aqui nesse
dia. Pelé ficou intrigado. Quem? O diretor fez um sinal e um homem idoso
aproximou-se. Ele andava devagar, apoiado numa bengala, os ombros curvados pela
idade. O seu rosto era enrugado, os olhos encovados, mas havia algo de familiar
naqueles traços.
Senhor Pelé”,
disse o homem idoso com a voz fraca. “O meu nome é Friedrich”. Em 1959, tinha
16 anos e estava neste estádio quando o senhor jogou cá. Pelé observou-o em
silêncio. “Eu fui um dos que atiraram bananas”, continuou Friedrich, os olhos
enchendo-se de lágrimas. “Eu fui um dos que gritou insultos. Eu fui um dos
monstros que tentou destruir o senhor.
O ar pareceu ficar mais pesado. O diretor
desviou o olhar claramente desconfortável, mas Pelé não se mexeu, apenas ouviu.
Naquele dia, disse Friedrich, pensava que estava certo. Os meus pais
ensinaram-me a odiar. Meus amigos me incentivaram. A sociedade inteira me disse
que pessoas como o senhor eram inferiores e eu acreditei.
Acreditei cegamente. Ele fez uma pausa
tentando controlar a emoção, mas depois o senhor jogou. E enquanto vi aqueles
golos, enquanto via aquela habilidade impossível, algo dentro de mim começou a
rachar. Eu já não conseguia odiar, não conseguia mais fingir que o senhor era
inferior, porque o que eu estava a ver era a coisa mais extraordinária que os
meus olhos já tinham testemunhado.
Friedrich estendeu a mão trémula. Carreguei a
vergonha daquele dia a vida inteira. Nunca contei aos meus filhos, para os meus
netos, mas quando soube que o Senhor viria aqui, eu precisei de vir também. Precisei
de olhar para os os seus olhos e pedir perdão. Não espero que o Senhor me
perdoe.
Não mereço isto, mas precisei de tentar. O
silêncio que se seguiu foi longo e carregado. Pelé olhou para aquele homem
idoso, aquele fantasma do passado, aquele rosto que poderia ter sido qualquer
um dos milhares que o odiaram naquele dia. E por momentos, a a raiva voltou, a
dor voltou, tudo voltou. Mas depois algo mudou.
Pelé estendeu a mão e apertou-a de Friedrich.
Eu não perdoo-te”, disse com a voz calma. “Não tenho esse poder. O que fizeste
não foi contra mim, foi contra a humanidade e só a humanidade pode perdoar”.
Friedrich começou a chorar, soluçando como uma criança. “Mas”, continuou Pelé.
“Reconheço a sua coragem de vir aqui, de me olhar nos olhos, de admitir o que
fez.
Isto é mais do que a maioria fez e isso tem
valor. Soltou a mão de Friedrich e olhou para o redor do estádio vazio. Eu
voltei aqui porque precisava de me lembrar, disse. Não para voltar a sentir
dor, mas para nos lembrarmos de onde viemos, de como era, do quanto ainda
precisamos caminhar. Aquele estádio é um monumento. Não a vergonha, mas a
possibilidade de mudança.
Se um homem como tu pode reconhecer o seu
erro, outros também podem. E talvez um dia não haja mais erros a reconhecer.
Friedrich assentiu ainda a chorar, sem conseguir falar. Pelé deu um passo em
direção ao campo, caminhou até ao ponto central, onde tantos anos antes tinha
levantado o dedo para o céu depois do primeiro golo. Ficou ali por um momento,
sentindo o peso da história sob.
E depois voltou, caminhou em direção à saída,
sem olhar para trás. Nessa noite, no hotel, Pelé escreveu no seu diário. Era um
hábito que ele mantinha desde jovem, registando pensamentos, memórias,
reflexões. Nessa noite, escreveu sobre o encontro com Friedrich, sobre a dor
que ainda existia, sobre a esperança que, apesar de tudo, ainda persistia.
O racismo não é
uma doença que se cura”, escreveu ele. É uma guerra que se luta todos os dias e
a única arma que eu tenho são os meus golos. Enquanto puder jogar, enquanto
puder mostrar ao mundo o que um negro é capaz de fazer, vou lutar. E quando já
não puder jogar, vou contar histórias, vou recordar. Vou fazer com que os
outros se lembrem, porque a a memória é a mãe da justiça.
Essas palavras nunca foram publicadas.
Ficaram guardadas num diário que só a família de Pelé teve acesso. Mas elas
revelam muito sobre quem ele era. Não apenas um jogador de futebol, um
guerreiro, um símbolo, um homem que transformou a dor em propósito. Décadas se
passaram desde esse jogo de 1959. O mundo mudou, o futebol mudou, as as
atitudes em relação ao racismo mudaram, pelo menos à superfície, mas a essência
daquela batalha continua viva.
Hoje, Os jogadores negros ainda enfrentam
insultos em estádios por todo o mundo, ainda ouvem sons de macaco, ainda vêm
bananas serem jogadas em campos. A forma mudou, mas o ódio persiste. E é por
isso que a história de Pelé precisa de ser contada. Não como curiosidade
histórica, não como relíquia do passado, mas como lembrete vivo de que a luta
continua.
De que cada golo de um jogador negro é uma
resposta aos que ainda odeiam, de que cada vitória é uma resistência, de que
cada o aplauso é uma conquista arrancada às garras do preconceito. Pelé nunca
foi apenas um jogador de futebol. Ele foi a prova viva de que a a excelência
não tem cor. de que a O génio não conhece fronteiras, de que um menino pobre e
negro de três corações, Minas Gerais, podia tornar-se o maior do mundo.
E aquele dia de Maio de 1959, nesse estádio
europeu, ele não só jogou uma partida, fez uma declaração. Uma declaração que
ecoou através das décadas e que continua ecoando até hoje. Vocês podem
odiar-me”, dizia aquela declaração. “Podem insultar-me, podem tentar-me
destruir, mas nunca, nunca me vão diminuir.
Porque eu sou maior do que o teu ódio, eu sou
maior do que o teu medo, eu sou o Pelé”. E perante esta declaração, até 60.000 vozes
tiveram de se calar. Se chegou até aqui, agradeço-lhe. Agradeço-lhe por ter
ouvido esta história, por se ter lembrado de Pelé não apenas como jogador, mas
como símbolo de resistência, por ter entendido que o o futebol é, por vezes,
muito mais do que um jogo.
A próxima vez que vira um jogador negro que
enfrenta racismo em um estádio, lembre-se de Pelé. Lembre-se daquele jovem de
18 anos que respondeu ao ódio com excelência. Lembre-se de que cada golo é um
ato de desafio, cada vitória uma resistência. E se você quiser ouvir mais
histórias como esta, fica aqui no canal, subscreve, porque histórias como esta
precisam de ser contadas, precisam de ser lembradas, precisam continuar vivas.
Se é fã de Pelé, sabe do que estou a falar.
Você sabe que ele foi mais do que números e títulos. Ele foi a esperança, foi a
prova. Foi a resposta que milhões de pessoas precisavam de ouvir. Deixa nos
comentários o que achou. Diz-me se você recorda-se dessa época, se viveu algo
parecido, se tiver histórias para partilhar, porque enquanto houver histórias,
Pelé estará vivo.